1- A chegada

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Se vê numa alameda densamente arborizada. As calçadas são admiravelmente largas, ornadas com floreiras em que brotam miríades de flores e cores. Para além das calçadas, feito imaculados carpetes verdes, estendem-se vastos gramados perfeitamente lisos e planos. É uma rua bucólica, quase silvestre, combinando o belo da natureza subjugado pelo trato do jardineiro e sua afiada e ágil tesoura. O lugar evoca as melindrosas cidadezinhas suburbanas dos filmes de Hollywood que, de tão limpas e ordenadas e simétricas, parecem ter sido criadas mais para príncipes e princesas que para gente. Embora cada árvore pareça de fato árvore, cada flor, de fato flor e cada folha, de fato folha, suas formas são duma exatidão que remete a círculos, triângulos e quadrados traçados em nanquim, preenchidos em cores primárias sobre a mais branca das folhas de desenho.
Olha o céu. Cada nuvem a navegar pacificamente é alva como imagina-se seja a asa dum anjo. O próprio firmamento, dum azul puríssimo que mesmo a imaginação não sonha imaginar, completa uma perfeição que de tão extremada ultrapassa a própria perfeição para converter-se em harmonia absoluta. Mas é uma harmonia artificial e excessiva, evidência definitiva de que o belo também requer algo de dissonante para criar a pureza.
Meio atordoado diante da maravilha, leva vários minutos para se recompor. E quando se recompõe, vê-se diante duma casa. Casa propriamente, não: palácio. É uma edificação de quatro andares estilo Tudor inglês em que cada detalhe revela fausto, luxo, pompa e nobreza. Ele procura na memória algo que se assemelhe a tanto esplendor. Lembra-se do Palácio da Liberdade, em Belô, aonde seu pai o levava esporadicamente quando tinha cinco ou seis anos e em cujos jardins passavam as tardes de domingo. Não, o Palácio da Liberdade é um casebre ao lado de toda esta suntuosidade que agora lhe enche os olhos. Embora tenha uma visão apenas parcial da formidável edificação, pode deduzir que se divide por inúmeras alas e átrios. E a imponência não deixa dúvidas: é dentro daqueles majestáticos aposentos que se emitem magnânimas receitas que curam continentes inteiros, se planejam projetos de pesquisa que vão descobrir novas curas para velhas doenças, se urdem as biografias dos homens excelsos especialmente criados para trazer o Bem aos povos e evitar que a humanidade chegue com desconforto ou antes da hora ao Grande Destino, é ali, exatamemente ali que esses genuínos anjos pactuam quais homens devem sobreviver a outros, que se determina a prioridade médica dos aristóteles, jesus cristos, maomés, shakespeares, goethes e freuds da vida. Enfim, é Ali que o Grande Especialista dita as regras que regem este nosso formidável Universo e as reles vidinhas de cada serzinho que tão humildemente o habita.
Por alguns segundos tenta imaginar a beleza das doces recepcionistas e enfermeiras que certamente habitam este paraíso. Seriam branquíssimas ninfas angelicais de loirice dinamarquesa, perpetuamente virgens, monjas detentoras do saber das universidades, anelo inexprimível no sono dos homens que tinham ficado no antigo mundo, sobretudo dos homens da boa e velha Minas Gerais que ele aprendera a amar e louvar ainda criança. Embora sem poder respirar, não pode evitar as lágrimas nos olhos quando pensa em sua terra natal.
Então é com essas monjas que eu sonhava e não sabia, diz a si mesmo, levando um susto ao ouvir a própria voz.
E leva outro susto quando percebe que, mesmo diante da clínica do Grande Especialista, mesmo prestes a ver extinta a suprema aflição física que lhe obstrui o caminho para a felicidade, continua tão assustado quanto sempre fora quando respirava.
Em estado de ascese, algo lhe comprime o braço. Alguém, alguém invisível mas mesmo assim absolutamente confiável, o conduz por entre as macegas e arbutos decorosamente aparados dos jardins. Não sente os pés apoiados no chão de lajotas de pedra mineira. Flutua rumo ao portal do palácio.
Ao parar sob o arco de entrada, sente-se ligeiramente desapontado. Sem saber exatamente por que, esperava que a porta estivesse aberta para ele. Ri em silêncio. Seria pretensão demais. Se recrimina, execrando-se por não ser forte o suficiente para não resvalar para um desses estados de espírito em que pensa merecer do mundo mais do que lhe é devido.
Quando se vê diante da grande porta de duas folhas caprichosamente ornadas em madeira de lei, avista prontamente um sino de ouro, provavelmente ouro maciço. De seu interior pende um cordão. A ponta do cordão é arrematada por uma pedra reluzente — por certo um diamante.
Em estado de graça, cerra carinhosamente o punho em torno do cordão e puxa. Uma delicadíssima, angelical badalada preenche seus ouvidos, ecoando pelas paredes do palácio e pelas árvores dos imensos jardins.
Passam-se dois minutos, cronometrados no relógio. É uma das esquisitices dele — registrar o início e o fim de todas as esperas que enfrenta na vida. Pelo visto continua com a mesma mania mesmo agora que não respira. Passa-se outro período infindável de espera.
Bem, pondera, dois minutos devem ser suficientes. Acho que já posso soar o sino novamente. Torna a fechar o punho ao redor do cordão e puxa — agora com um pouquinho mais de força. Mal senta-se, arrisca um olhar para o rapaz. Tem vaga sensação de que o conhece de algum lugar. Vasculha a mente, procurando lembrar-se. Tenta associá-lo a rostos conhecidos, mas a associação se desvanece sempre que parece chegar perto dum rosto familiar. Desiste. Não tem mais forças para lembrar ou esquecer.
Ao contrário da primeira vez, o badalo do sino produz um tinido seco e agudíssimo. Ele protege os ouvidos com as palmas das mãos, temeroso de ter os tímpanos rompidos.
— Já vai! Já vai! — alguém berra do lado de dentro.
Tem um sobressalto, dando-se conta, sem atinar com a razão, de que não esperava que respondessem. Escuta uma sucessão de estalos secos e metálicos da fechadura sendo aberta. Depois, outra sucessão de estalidos de ferrolhos sendo destrancados. Conta sete ao todo.
— Não pode esperar um minuto? — ralha o mesmo alguém. Dirige-se apreensivo para a porta e entra. O primeiro sentido a se manifestar assim que cruza o umbral é o olfato. Há um forte cheiro de queimado no ar. Algo está sendo ou foi incinerado. Não sabe exatamente o quê. Ciente de que a coragem desvanece, perigosamente aproximando-se do nível zero, ele se apressa a rotular de fantasiosas as terríveis associações mentais causadas por aquele odor. Esta não é hora para imaginar coisas, repreende-se.
A porta se escancara num golpe, pondo à mostra um homem rústico, lembrando um d'Os comedores de batatas de van Gogh. Tem a camisa fora das calças e a barba por fazer. É aquele da voz, Cândido tem um calafrio, lamentando não ter permanecido eternamente à espera.




2 - A recepção

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

— Que é? — vocifera o homem. Entre! — ordena uma voz da outra sala.
— Bom dia. Como vai? Passam-se alguns minutos, não o chamam. Passam-se outros e outros. Ele decide sentar-se novamente. Duas horas depois imagina que tenham esquecido dele. Levanta-se da cadeira e põe-se a caminhar de um lado para outro na sala de espera. Consulta o relógio de minuto em minuto. Depois a cada cinco segundos. Já perdeu a esperança de ser atendido quando, às 22 horas da noite seguinte, escuta a maçaneta da porta girar e a porta abrir.
Apesar de ter perguntado apenas por formalidade, ele espera alguns segundos para que o homem possa responder. Mas o sujeito continua fitando-o com a mesma expressão de impaciência. Receoso de causar constrangimentos, ele se apressa a explicar: É agora! Cândido pensa, tentando preparar-se para ser chamado.
— Vim fazer uma consulta com o doutor Geraldo. Sou o Cândido. Cândido Franco Brandão. Olha angustiado para o relógio. Onze em ponto. De repente, a voz na outra sala cala-se.
— E eu com isso? Cândido, José, Tobias, para mim não faz diferença nenhuma! Aqui todo mundo é igual e ninguém tem nome. Cândido ouve o que parece ser uma acerba discussão, com vozes masculinas abafadas, cochichos e às vezes urros fenomenais que fazem o chão literalmente tremer. O berreiro vem duma sala contígua. Se aproxima cautelosamente da porta, tentando distinguir o que as vozes dizem, mas não pode compreender coisa alguma — a língua que as vozes falavam lhe é não apenas totalmente desconhecida, mas estranhamente gutural e rítmica ao mesmo tempo. Então uma das vozes começa a troar em inusitada e medonha violência, pondo o teto a estremecer e fazendo chover ciscos de poeira sobre sua cabeça. À medida que a voz troante cresce em volume, a outra voz definha, até sumir por inteiro. O homem que aparentemente triunfou sobre o oponente não arrefece um segundo sequer. Pelo contrário, exacerba-se cada vez mais, como se não houvesse limite para sua ira.
Pô, o sujeito não faz o mínimo esforço para ser polido, Cândido pensa. Acho que a parada vai ser dura. Começa a olhar as paredes, considerando seriamente a hipótese de tacar a cabeça numa delas, quando repentinamente o silêncio se impõe. Atônito, se joga numa cadeira, que cede sob seu peso. Se estatela no chão. Se põe em pé incontinênti e alisa a camisa e a calça.
— Poderia falar com a recepcionista? A ponto de enlouquecer, olha para a porta. Quer fugir mas teme o preço da insubordinação. Se uma simples reclamação quanto a uma porcaria de música já é motivo para tão cruel tortura, que dirá fugir...
— Que recepcionista? Isso aqui tem jeito de hotel, por acaso? Isso é injusto! protesta em pensamento. A única vez em que ousei abrir a boca sou castigado desta maneira!
Cândido, que já estava com o carrapato atrás do apêndice auricular, agora fica decididamente alarmado. Uma centelha de dúvida cruza seu pensamento. Num átimo revive mentalmente a epopeia que teve de passar para chegar até ali. Ó Deus, teria se enganado de endereço? Nem bem emite essas palavras, o volume é elevado a nível quase insuportável, que o obriga a tapar os ouvidos. Em vão. Os terríveis, desastrados acordes fazem vibrar o ar, as paredes, as revistas, o chão e todo o corpo e o cérebro do descorçoado Cândido.
— Mas aqui não é a clínica do Grande Especialista? Assim é demais...
— Aqui mesmo.
Ligeiramente aliviado, Cândido tenta tomar pé da situação. Põe a cabeça entre as mãos, impaciente. Bufa. Bufa de novo. E de novo. Na terceira vez, começa a escutar uma música, a princípio extremamente baixa, praticamente inaudível. Aos poucos a música cresce em volume, até que ele pode identificá-la.
— Com quem posso falar para fazer minha consulta?
— Consulta para quê? Se está procurando o INPS, bateu em porta errada. Está vendo algum guichê de inscrição por aqui?
Um pouco mais calmo, Cândido põe-se a estudar onde está. Vislumbra algumas cadeiras destrambelhadas ao longo duma parede e uma mesinha de centro abarrotada de revistas igualmente velhas. Por força do hábito consulta o relógio. Surpresa! — está trabalhando. Nove e quarenta. Não acredito, pensa. Conseguimos chegar adiantados!
— Pensei que tivesse de preencher alguma ficha ou pegar uma senha, sei lá.
— Pois pensou errado. Não temos essas formalidades burocráticas, não. É tudo aqui ó! — O homem leva a mão à altura dos lábios e brande o indicador para frente e para trás, querendo indicar que ali o dito tem força de contrato legal. — Senta aí! —ordena.
O porteiro está em pé no meio da sala, braços cruzados, tamborilando impaciente um dos pés no chão, sacudindo lenta e rispidamente a cabeça. Num esgar maníaco, tem a boca medonhamente arreganhada para um lado. Se pudesse vê-lo agora, van Gogh ficaria inspirado em dobro. Quem sabe abocanharia a própria orelha.
— Ah! — Cândido exulta. — Então aqui só pode ser. É aqui, não é?
O Tempo se arrasta, quase implorando para parar de vez.
— Pode-se dizer que sim.
Cândido para, arquejante, e aguarda. Deve entrar também? Sim? Não? Sim...? Não...?
— Bem, já que é aqui... e sendo o senhor o porteiro... — Cândido se cala e abre um sorriso tímido, tentando parecer simpático. — Se importaria em me dizer seu nome?
À medida que o Tempo passa, Cândido vai se esquecendo de onde está, para que, por quê. Sente tamanha ânsia de suplicar um descanso de alguns minutos, que às vezes vê-se forçado a cobrir a boca com a mão para conter tão imperdoável insolência.
O homem, dando mostras de que mal se controla para não explodir, sacode as mãos abertas perto do rosto de Cândido. As horas transcorrem qual intermináveis dias.

3 - À procura da clínica do doutor Geraldo

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Sem nenhuma razão lembra de Edila, antiga namorada dos seus tempos de rapazola. Inexplicavelmente alegre com a presença inesperada do matuto, decide que é sua chance de tirar a teima. Ainda não se convenceu de que a clínica fica de fato naquele casarão corroído pelo tempo e pelo desmazelo ou se se trata apenas dum engano daquele clínico geral que anotou tão descuidadamente o endereço no papel. Que fim terá tido Edila? se distrai por dentro, grudando os olhos no capineiro do outro lado da rua.
Você não gosta mais de mim? perguntou quando ela disse que ia romper o namoro. Não sei, não sei! Baixa a cabeça e ruma em passinhos aflitos para o recém-chegado. Se detém ao seu lado e observa. O outro parece não notá-lo.
E Edila rompeu. Um rompimento tão seco e abrupto e resoluto, que nunca mais a viu. Depois de aguardar alguns segundos resolve interpelar. A voz não sai. Apenas um cochicho. O outro continua indiferente. Dá um cutucão nas costas do rapaz. Que se volta.
Para seu próprio espanto não tardou a procurar outra. Para espanto ainda maior, não tardou a encontrar. Bete, que conhecia de nome, de vista e de seus olhos. “Com licença”, a voz por fim toma corpo e se articula. “Sabe me dizer se esta é a clínica do doutor Geraldo Ribeiro?” Sente o coração parado.
Seu amor eterno. Mais todas aquelas milhões de fadas por quem fantasia e anseia. O outro parece não ouvir. Cabeça baixa, continua entretido em sua faina de capinar os vãos das pedras. Mas ele percebe que o outro olha de esguelha por sobre o ombro em sua direção. Aparentemente está se fazendo de desentendido. “Responda!” – sua boca libera um brado medonho e ele se apavora com a potência e a dureza da própria voz.
Não pode berrar tanto quanto deseja, pela fadiga do coração e a confusão da mente. Pigarreia. Quer perguntar de novo. Procura preparar uma clave de barítono. Abre a boca, mas tem a língua presa. Fica ali petrificado. Mira o outro, suplicante.
Órfão eterno. O capineiro prossegue indiferente. Parece não querer conversa. Confuso, resvala os olhos-coriscos entre o chão e o estranho que o aborda. De repente senta-se no lugar em que está e faz um gesto com a mão, como que dizendo “Venha aqui sentar-se perto de mim”, mas um gesto intimidatório. Seu rosto assume uma expressão de quem parece prestes a contar uma história. Uma longa história. “Acho que você vai gostar dessa trama”, ele parece dizer. Mas efetivamente não abre a boca.
Confuso, resolve inquirir mais uma vez. Agora em voz de tenor, uma oitava acima. O rapaz baixa a cabeça e encolhe os ombros, estranhamente embaraçado.
Logo se decepcionou com a Bete. Craque em desvendar o caráter alheio, diagnosticou entristecido: mitomaníaca. Nos primeiros três dias percebeu que se tratava duma minimitomania constituída de mentirinhas inócuas lançadas quase a esmo só pelo prazer de ser frívola e pelo que a mentira tem de lúdico. Parecia suficientemente amena para que ela pudesse se desincumbir das tarefas cotidianas mais básicas e ao mesmo tempo manter uma fachada para consumo externo que lhe permitisse um mínimo de aceitação e trânsito social. O rapaz não lhe dá a mínima. Aguarda, meio aflito. De repente o capineiro se levanta e, abrindo os braços num gesto amplo para o alto em sinal de surpresa, exclama: “Ah, é você! Faz tempo que chegou? Por que não me avisou que estava aí? Não lembra mais de mim?”
Com o passar do tempo viu que a Bete às vezes escapava ao controle, inventando umas histórias inverossímeis sobre seu próprio passado e o de seus parentes mais próximos. As invencionices formavam uma trama, se entrelaçando, se combinando, se afastando para se reaproximar, umas parando no tempo, outras correndo paralelas, outras ainda se abrindo em bifurcações e trifurcações. A trama às vezes crescia numa epopeia suficientemente pesada para infernizar a vida de quem tivesse o azar de conviver com ela. No início ele duvidou que fosse capaz de habitar um mundo feito só de mentiras. Dá um passo em direção ao matuto e lhe cutuca o ombro. O outro gira vagarosamente a cabeçorra e olha em sua direção. Estremece, sente o coração, que deixou de bater há anos, disparar, indeciso se vai morrer ou continuar a viver.
Tem frágil poder de captação. Sabe que muitas coisas acontecem à sua volta sem que se dê conta. Se muito, é capaz de se perguntar se essas coisas vale a pena conhecer. Não lhe interessa muito compreender os mecanismos que governam dentro. O sol lá no alto não é a gema da clara estelar. O rapaz se volta para ele sem reagir ou mexer um músculo do rosto. Pousa nele um olhar inexpressivo e opaco como se feito de madeira. Se estivesse caído nas pedras da rua qualquer um pensaria estar diante dum cadáver. É o meu! – não consegue reprimir o assombro e o grito malabafado. Tampa a boca com as mãos e olha aterrorizado o outro, certo de que levará uma enxadada na cabeça por ter dito algo tão sem nexo.
Não pode falar tanto quanto precisa. De todas as vezes em que calou fosse espontaneamente ou pressionado por olhares de condenação, dando-se por derrotado sem sequer aventar a luta, lembra amargurado que aos cinco anos já se achava o super-herói dos derrotados. Tal pensamento lhe provoca profundo mal-estar. Engole em seco e se dirige novamente ao matuto. No céu a gema do sol agora vai amolecendo como nos ovos que sua mãe fritava para ele, prestes a fazer desabar uma chuva amarela e grossa e gordurenta sobre o mundo. Não um mundo qualquer. O seu.
– Por gentileza. Sabe me informar se aqui é a clínica do doutor Geraldo? – sorri gentil. E aponta.

4 - A aproximação

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Se vê diante duma casa simples, simples demais para seu gosto. Experimenta com os dedos o papel no bolso, outro exame. Puxa para fora e confere novamente o escrito. O endereço é este mesmo, reconfirma confuso. Tem fresco na memória. Não está espantado de ter comparecido. Sendo tão taciturno e melancólico, era fatal que mais dia menos dia tivesse a curiosidade despertada e viesse. Não quer explicar. Faz tanto tempo, aquele dia remoto, o mais ensolarado deles, logo seguido da noite mais clara jamais produzida pelo Senhor, em sua inalcançável sapiência que a ele, reles mortal, brasileiro de pai sem nome e mãe sem dentes, não é dado compreender. Então foi seguindo sem rumo, tateando o caminho tenebroso no fundo breu, a alma, menos que vazia, inexistente.
O casarão, assomando à frente em meio a pensamentos orbitando em torno da consulta, traz lembranças obsessivas da infância. Será? Tudo praticamente às ruínas. Tosco, malcuidado. Não fosse a indicação que deram diria que está abandonado. Examina o endereço pela enésima. Por que tantas trevas, por que tamanha vacância por dentro? Se lembra? Se lembra daquele dia?
Cenas que tinham desaparecido ressucitam, ultrapassando as dimensões normais, se agigantando como se não pudessem caber. Por fora, continua sereno. Olha em volta, vê que é a única casa da rua. Procura algum ânimo no espírito acabrunhado. Deve ser aqui. Mesmo sem poder respirar, sente ligeiro alívio no peso que lhe sufoca o peito. Queria estar impregnado de emoções ricas, alucinado de idéias férteis a borbotar em cornucópia inesgotável e sedutora. Mas a alegria nele só resiste um átimo antes de se deixar solapar por sua anima anticriadora. A lua cheia sob a qual nasceu nunca lhe disse nada. É um corpo-depósito de ossos velhos e órgãos inúteis. Macambúzio e oco, lembra, certa noite foi chamado piedosamente a um canto do quarto escuro, seu quarto, e interpelado.
Se pudesse externar o que lhe ia dentro teria forçosamente de se mostrar estarrecido. Ergue a cabeça e os olhos à procura duma placa indicativa, quem sabe um logotipo, um luminoso. Nada. Noite esplêndida noite estrelada de lua cheia e...
Nunca mais, nunca mais, seu lema particular e intransferível desanda a martelar dentro. Alça o braço para tocar a campainha. Nenhuma. Não resiste a inspecionar a parede. Faz bom tempo não recebe uma demão de tinta. O que não quer dizer coisa nenhuma. Que significado pode ter uma demão de tinta? O mundo está preocupado com bobagens demais. Bem, poderia. Poderia significar, por exemplo, que em sua chegada o dia estava mais iluminado, sob a égide do rei Sol. Mas que pena. Se saiu tão sombrio.
Começa a chover, grossos, abundantes pingos despencando miraculosos das nuvens. Em breve, quanto? inúmeras plantinhas começarão a germinar das sementes espalhadas pelo vento. E então essas inúmeras plantinhas morrerão para dar lugar a outras. E outras. E outras. Deve ter pelo menos uma aldrava, daquelas antigas, pesadas, de bronze ou ferro fundido. Tampouco. Nasceu no verão, provavelmente num dia chuvoso e fértil como este.
Os pingos cessam. Ergue os olhos para o céu. Sente o cérebro sendo invadido e ocupado pelo prelúdio de Tristão e Isolda, a melodia mais fúnebre e ominosa já perpetrada pelo espírito humano. Uma nuvem sequer. A abóbada celeste está coberta por uma espessa camada duma matéria que aparenta ser não gasosa, mas corpórea, pastosa feito um creme diabólico-divino cor de chumbo. E, qual chumbo, pesada, prestes a desabar sobre sua cabeça. Se tivesse visto um firmamento assim, van Gogh certamente não teria pintado a noite estrelada. Mas que belo dia ensoladorado. Quem nasce em dia quente não padece muito durante a queda.
Vendo-se sem saber direito o que pensar sobre o casarão, se agonia. A gana de xingar morre na garganta. Talvez seja apenas uma pensão. Uma nuvem cruza o céu diante do Sol, luz de ouro e diamante a projetar astros prismáticos na parede descascada. A luz vespertina a se esmaecer. Tarde, abençoado interregno entre as frustradas promessas da manhã e as sombras mudas da noite. A noite é bela. Mas pode se tornar um pesadelo se houver um acidente, um pequeno descuido no plano dos acontecimentos. Tudo depende do crepúsculo. Os meio-tons e seus fugidios passos de dança podem, se você tiver sorte, trazer uma viagem mágica à aurora. Ou, se sua sorte não for tão grande, o lusco-fusco e seus contornos enganosos com suas figuras incompletas erigirá um túmulo de translúcido granito ao seu redor e a alvorada levará séculos para chegar.
Se.
Quer suspirar. Assoberbado, tenta afastar os olhos do céu. Incapaz. Nessas situações – que nos últimos tempos ocorrem cada vez mais amiúde –, o jeito é cerrar as pálpebras e aguardar que a comoção se extingua por inércia qual cãimbra inesperada e inexplicável. É o dia do seu nascimento. É, sim.
Ao redor um mundo desabitado, sequer um único representante da vida, uma erva daninha, uma mosca, um verme. Uma vez mais a ilha do Tempo. Leva as duas mãos ao peito, aperta – nada. Longos segundos de espera. Retoma o estudo do casarão. Que é que temos aqui? – fala em tom cordial, querendo se apaziguar consigo mesmo, ainda comprimindo o peito. Pose de quem roga piedade. A si, seu verdugo. Pedido concedido. Mais um dia, novo renascimento.
Enxerga o mundo com olhos de vidro. Ao lado da porta há uma janela. Trancada. Do lado da edificação, acácias. Sob as acácias, sombras. Seus olhos vítreos começam a reparar nos detalhes com maior atenção. Desmazelo. A equipe de manutenção deve estar em férias há anos. Os interstícios entre as pedras da entrada guardam uns matinhos, que na Europa, nos tempos de seus deuses particulares, Bach, Mozart, Beethoven, Wagner, Mahler e, em menor intensidade e gana, Schubert, Brahms, Schumann, Mendelssohn, denominavam-se ervas daninhas. A contragosto, ressabiado com pensamentos que se intrometem em sua cabeça, continua a tirar registros:
Limo na base da parede
Teias de poeira nos vãos
Tinta comida pela ferrugem na grade da janela
E outras marcas menos evidentes de desleixo.
Uma campainha soa. Como, se ainda não tocou?
No meio da bruma quase que nunca ouvia a voz aguda desculpando-se.
Ao lado da porta há o que parece ser uma tabuleta que foi recoberta por uma camada de caiação. A cal esfarelenta em alguns pontos deixa entrever uns dizeres. Mas é impossível distinguir ao certo o que está escrito por debaixo.
A mesma campainha soa outra vez. O estátua jaz sentado na cama no quarto. Ao redor dele coleções de botões de futebol, único gosto herdado de papai-estátua-cadáver, figurinhas, um álbum de figurinhas, livros da escola largados aqui e ali. O estátua folheia o álbum, desinteressado, absorto, apenas ciente de seu próprio imenso cu que na maior parte do Tempo que nunca passa parece ser a única coisa que existe neste mundão esquecido dos homens e mulheres de cera. Por onde andarão os pensamentos estatuais? Será que sabe? Começa a chover lá fora. O estátua não percebe. Não percebe a maior parte de tudo que acontece em sua vida. Vive atarefado às voltas com os acontecimentos a ocorrer a todo instante dentro. As nuvens passam lá no alto. O estátua jamais olha para elas. As árvores dão folhas e flores lá fora. O estátua sabe remotamente que existem. Tudo poderia ser um sonho. Para o estátua é apenas um instantâneo eterno. Será que a culpa é minha? se pergunta mentalmente, uma pergunta de significado terrivelmente cristalino e resposta terrivelmente angustiante.
Espera não ter de esperar. Muito, corrige-se. Aproximando o rosto da tabuleta, percebe que poderia facilmente raspar a cal com a unha. A campainha de novo. É papai-estátua em sua poltrona na sala vendo tevê. O granito grafite de papai-estátua reflete irisada a luz doentia do aparelho. Está passando um jogo de futebol. Um jogo de futebol interminável. Parece ter começado no dia em que nasceu. Raramente algo digno de nota acontece no jogo de futebol que papai-estátua assiste sem parar. Mais raros ainda são os gols. Mas mesmo quando há gols, mesmo nessas horas, papai-estátua não se emociona. Papai-estátua nunca ou quase nunca se encanta nem se fascina ou se comove. Invibrável. Fica lá, estátua com cu e tudo em sua poltrona-estátua, olhar morto colado magicamente na tevê, esperando a morte chegar. Sem saber que, ou indiferente se, ela já chegou.
De repente se flagra aturdido por um odor agônico de mar. De onde virá? Seria manobra? Deus é um brincalhão e só existe para quem sabe brincar. A idéia de deus se resume a um folguedo pueril que entretém serezinhos pueris mergulhados em medos e instintos abissais. É tão claro, assombroso que nem todos vejam essa verdade granítica. Pois ele também está mergulhado, exatamente como todos os demais serezinhos, mas é capaz de ver. Não que faça diferença. Não se acha acima dos outros por isso. Pelo contrário, sabe-se defeituoso. A fé num ente divino faz parte da natureza deles. É apenas mais um sentimento pelo qual toda a humanidade comunga. A religião é a liga química que faz de todos um só rebanho complacentemente satisfeito em pastar, mugir e peidar enquanto a existência não é suspensa. Pena que ele mesmo não saiba participar da grande brincadeira. Se pudesse, se soubesse, sairia a grunhir desvairado pelas ruas de sua cidadezinha mineira, seria o canoro de voz mais aguda e vibrata no meio da manada. Será que devo? Ato contínuo se recrimina. Deixe de ser curioso, ralha rispidamente dentro, sem coragem de acionar a voz. Não gosta de ouvir a própria voz. É por isso que evita falar sozinho. Tem vez, se esquece, resmunga um daqueles milhões de resmungos que costuma rezingar em pensamento e leva um susto. Quem disse isso? Eu? A autocondenação mental o perturba. Sempre o perturbou. Ninguém é ou foi mais rigoroso com seus defeitos e neuroses do que ele. Se pintaram a tabuleta foi porque não querem que seja lida, seu burro imbecil retardado. Perfeitamente lógico. Uma raspadinha só faria mal?

5 - A viagem

sob o prelúdio de Tristão e Isolda


Essa primeira letra parece um ele... ou um i maiúsculo. Essa outra, um ême...
Não. Não é agora que vai bancar o bisbilhoteiro. Abana a cabeça satisfeito por ainda conservar a velha prudência mineira. A campainha mais uma vez. Aparece mamãe-estátua – mamãe-estátua com cu e tudo parada diante da pia na cozinha lavando louça. O granito igualmente cor de grafite de mamãe-estátua reluz nas superfícies arredondadas mas os olhos estão opacos. O rádio emporcalha a atmosfera cuma daquelas canções bregas de que mamãe-estátua tanto gosta. A água corre abundante da torneira. O entrechoque da louça e talheres na pia produz o som mais familiar e reconfortador que possa haver. Mais até mesmo que o da Décima, por alguma insondável razão sucumbida algures sob uma das gigantescas rochas inamovíveis de seu espírito.
O perfume agônico do mar é cada vez mais inebriante e arrebatador. Ele quer se safar. Nas inúmeras vezes passadas em que se deixou abduzir foi inundado duma nostalgia mórbida, tão mórbida que mal aguenta lembrar. Cheiro do mar da Praia Grande. Sentado no banco traseiro do Belair 56, papai-estátua-cadáver ao volante, mamãe-estátua-maravilha de cara fechada ao lado, o vento carregado de sal varrendo suas mágoas, trazendo fantásticas promessas de surpresas. Sente-se doente de melancolia. Sufocando a bomba de entusiasmo que implode dentro, quer partilhar as promessas alvissareiras com papai-estátua-cadáver e mamãe-estátua-maravilha. Não pode. Não sabe como. Papai-estátua-cadáver tinha dia olhava para ele com ar compadecido. Será que sabia? Teria ele também tido um papai-estátua-cadáver? Era muito provável que sim. Ambos tinham, ele sentia, ambos tinham o mesmo brilho melancólico no olhar. Ou melhor, a mesma falta de brilho. Um olhar sem brilho é muito pior que melancólico. É morto. Morto e móvel. Arrastado por mamãe, papai nunca faltava à missa aos domingos. Puxava o terço todas as noites. Não invocava o nome de deus. Nunca. Nem blafesmava. Sequer deixava escapar um palavrão, mesmo que fosse apenas um desses escatológicos que todos proferem centenas de vezes por dia para provar a si mesmos que são limpos. Mas papai não o enganava. Também não era membro honorário do infinito rebanho apascento. E, assim como ele, devotava um profundo, um inefável desprezo por aquela gente vocacionada para o abate. Um desprezo tão profundo e inefável, que ambos só podiam se entreolhar, um olhar assustadiço carregado de desespero, e ao mesmo tempo calar num mutismo tácito. Qual um aleijão, nasceu descrente. E não é apenas duma entidade suprema que descrê. Bem que queria acreditar em outras coisas em que a maioria acredita. Todos são tão cheios de princípios e verdades e lições e lemas fulgurantes. É como tudo tão fácil. Precisam de algo mais? Não, têm tudo que lhes basta e apetece. Humildes e cônscios da relva verdejante ao redor, trocaram a Grande Verdade por corolários amostra-grátis. Que lhes importa que haja ou não Alguém por trás de tudo? Querem é ser felizes. Só os tolos se deixam imolar por especulações metafísicas. A fé cega nada tem de metafísica. É apenas uma admissão quase deliberada das limitações emocionais e biológicas da raça. Tendo dentro de si aquele cheiro de mar avassalador, não sobra lugar para a ideia de deus. Não que seja um consolo tampouco. Quando o cheiro desaparecer virá outro estado doentio. Já se acostumou. Com o ciclo, não com o padecimento. Deus só existe na medida em que faz dele um marionete experimental. Estará sendo personagem de algum autor que não ele mesmo? Será um boneco nas mãos dum deus brincalhão? Do... Forjador? Quando o Forjador quer arrancá-lo da angústia do presente envia assim sem mais nem menos aquele cheiro de mar. Nessas horas pode até sentir os siris a lhe picar os dedos dos pés. O Forjador é mestre em seduzi-lo. Paroxia.
A próxima, pelo jeito, será a Bete, pensa entre esperançoso e nauseado. Teve sorte de encontrar a Bete. Por uns dias se entregou a um estado autocondescendente em que as noções básicas da existência eram regidas pelo princípio do destino. A Bete tinha de ser sua. Ele tinha de ser da Bete. Moça direita. Moça de família. Ele podia ser ou deixar de ser o que fosse mas não ingênuo a ponto de desposar uma mulher que não fosse de família. Não, ninguém pode ser tão tolo. Quando se conheceram ela contou que perdeu a virgindade numa brincadeira qualquer de criança, com uma priminha na banheira ou algo assim. Oficialmente virgem.
Ele arregalou um pouco os olhos, fuçando dentro o que responder. Não sabia se queria uma mulher que não fora deflorada por outro. Há qualquer vantagem nisso? Homens de senso prático, homens pragmáticos, homens cum sólido senso instintivo da sobrevivência, que de fato sabem onde o galo canta – e, sobretudo, são convictos de que o galo deve cantar em algum lugar – provavelmente sabem. Passada a surpresa – ou teria sido um choque? –, procurou forjar uma expressão satisfeita fora. Era bom não arriscar – talvez Bete quisesse encenar o ritual da donzela predestinada. Em Minas sempre é bom ter cuidado com essas coisas. Dá de ombros, ainda contrariado, tentando uma autossimulação para se enganar. São detalhes. E detalhes não têm importância. Faz que sim com a cabeça, olhar grudado na porta, concordando com as próprias conclusões.
Não adianta discordar, afinal. Por incrível que possa parecer só chegou a essa conclusão depois de adulto. Não, não adianta discordar de dentro. É inútil. Contraproducente. Doentio. Doloroso. Autoverdugo e autossoldado, a mesma coisa. Resignado, meio chateado com o descaso daquele médico com os pacientes, decide-se. Já que não há campainha, o jeito é bater. Prepara o ânimo, ajeitando, manipulando. Poucas coisas há na vida mais estranhas que bater em porta alheia. Retesa os músculos dos ombros. Vejamos o que temos aqui. Que casa é esta?
O cheiro de mar desaparece por sob o crepitar distante dum incêndio. Terá o céu entrado em combustão? Não, deve ser a fogueira de suas mágoas. Às vezes começam a queimar espontaneamente e de sua existência o único sinal é o crepitar que produzem. Em geral dura até o dia seguinte.
Se empertiga. Levanta o braço. Enrijece os músculos. Fecha o punho. Avança o nó do dedo médio qual um aríete. É nessa preparação gestual que está, prestes a bater na velha e pesada porta da qual, não pode deixar de notar em sua irritante mania estetizante de perfeição, se desprendem múltiplas camadas de esmalte de antigas eras, é nessa preparação gestual que está quando escuta vagamente uns passos descendo a rua. Sente o braço ser puxado como que por um punho invisível. Tímido, consente.
Seja o que for, está certo. Detém o punho no ar. Gira o pescoço para ver quem passa. Por mais alguns segundos, salvo da premência de se decidir.
Sendo mineiro, sua crueldade se limita à mesa. Qual uma barcaça de mil toneladas abarrotada de mil toneladas de suprimentos, constituídos dos alvíssimos queijos de minas, dos ovos de pato e de ganso e das goiabadas iridescentes dos mil quintais de sua infância, aderna se afastando da porta carcomida e gira lentamente em direção à rua. Os passos que escutou são dum rapaz com pinta de roceiro e o olhar vazio dos jecas de inefável solidão que vivem da capina. Cansou de ver em sua aldeia rodeada de montanhas aqueles olhos solitários vagando perdidos em busca de nada, refletindo nada senão uma dor indizível. A dor de ser bovino. O rapaz traz repousada num dos ombros uma enxada. Assim que chega à altura do casarão o capineiro desce seu instrumento de trabalho e se põe a carpir uma touceiras de mato ao longo do meio-fio. Ele apenas olha, tomado de perplexidade.
O tilintar da lâmina de ferro da enxada contra uma ou outra pedra enterrada sob a superfície da rua o traz de volta do barco imenso e pesado, que por instantes se perde em meio a uma neblina. 

6 - O desfile

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

– Um... – o outro leva a mão ao queixo, estudando o casarão. Em seguida direciona os olhos para ele e coça a nuca. Parece desconfiado.
A desconfiança o põe alarmado. Se arrepende. A pergunta parece ter despertado um processo mórbido na mente do capineiro, ressuscitando reminiscências falecidas em outras eras. Ele se arma por dentro, “Vamos ver o que vai dar”. Lança um olhar preventivamente ameaçador para o rapaz e vocifera:
— Se não quiser dizer, não precisa.
O outro se põe a boquejar, desorientado.
— Sei, senhor. – E faz que sim quase imperceptivelmente, pousando a enxada no chão.
Ele tem um sobressalto – não esperava que o outro finalmente respondesse. O assentimento não é nenhuma garantia, contudo, e ele duvida da demonstração de candura. Cândido, que a princípio olhou desinteressado, de súbito sente que está diante de algo familiar. Apura a vista. Não pode ser, pensa, atordoado.
— Ah! Quer dizer que é aqui mesmo? Olham novamente. A mansão, vista do alto, é enquadrada em plano geral, oferecendo ao telespectador um panorama do ambiente em que se dará a ação, tal como ocorre nas primeiras cenas dos filmes de Hollywood. A seguir, o plano geral começa a se reduzir gradualmente, fechando o foco em algum ponto do casarão e expondo detalhes.
— Não é não senhor. — O matuto sacode a cabeça. Agora vigorosamente. Calma. Como vos dizia, trouxe aqui um material que vais adorar. — Dizendo isso, o capineiro aperta uma tecla no controle.
— Oh! — Ele se vê novamente desanimado. — E você por acaso sabe onde fica a clínica do doutor Geraldo? — A pergunta é feita mais por inércia que por crença em que o outro possa, mesmo remotamente, saber tal informação. Rá-rá-rá-rá-rá-rá-rá! Essa até que foi maneira! — o outro solta uma gargalhada evidentemente forçada e dá um safanão afetuoso nas costas do capineiro tímido, quase atirando-o ao chão. — Mas estou cansado dessas cenas de ação, já disse. Quero algo diferente. Grááááhhh! — De repente emite um rugido formidavelmente áspero e intenso, fazendo vibrar o chão e as paredes e obrigando Cândido a tapar os ouvidos para não ensurdecer. — Porra, será que é tão difícil assim?
— Sei, sim senhor. Cândido espreme as pálpebras e meneia a cabeça, nauseado com tamanho sofrimento. A misericórdia também corrompe.
— Ah! — torna a se animar. — E onde é, então?  O capineiro apanha o controle remoto e olha. Cândido acompanha seu olhar, fascinado cuma cena em que uma cidade litorânea na Ásia está sendo invadida por um tsunami. Ondas descomunais tragam casas, carros e pessoas, derrubando prédios, carregando no bojo toneladas de entulho, troncos, mobília, restos de telhados, caminhões. Centenas, milhares de moradores submergem nas águas turvas até não ser mais vistos. Mães são obrigadas a largar as mãos de seus filhos, assistindo desamparadas enquanto as ondas os carregam inapelavelmente. Crianças choram de desespero vendo seus pais arrancados dos galhos de árvores em que buscaram proteção.
Sempre segurando a enxada, o rapaz torce o tronco para trás e aponta. Cândido continua parado em pé ao lado do porteiro. Este às vezes solta um pigarrinho, procurando chamar a atenção do rapaz-homem, que insiste em fingir que não notou a presença de ambos.
Não vá, pai.
— O senhor dobra aquela primeira esquina ali e pronto. Vai dar de cara com a clínica. Não tem erro. Claro que não. — O capineiro dá um sorrisinho sem graça. — Cinco mil anos dessa lenga-lenga já deram o que tinham que dar.
Por favor, paizinho.
Diz obrigado, muito obrigado. Sorri. Não satisfeito, levanta ostensivamente a palma da mão para o outro, reforçando o agradecimento. Está realmente grato. Saber que a clínica do dr. Geraldo Ribeiro não é aquele casarão quase malassombrado lhe dá um certo desafogo. Até então tudo parecia estranho além do suportável. Não teria cabimento um médico tão importante e famoso atender naquela espelunca. Seria mais ou menos como se Deus controlasse o mundo a partir do inferno. Não me venha com cenas de tortura e execuções. Estou farto dessa tralha. Tudo bem que minha paciência seja infinita. Mas não abuse!
Comove-se de ser como papai.
Põe-se no caminho indicado. Finalmente exulta dentro. Se respirasse teria soltado as dezenas, ou talvez centenas, de metros cúbicos de dor represados em seus pulmões. Mais um pouco, desistiria. Persistência nunca foi seu forte. Se não lhe tivessem assegurado que o dr. Geraldo é o melhor médico do mundo, já teria perdido a paciência. Provavelmente nem teria se dado o trabalho de fazer toda aquela viagem cansativa e ficar zanzando pelas ruas desconhecidas. O desconhecido — seja um bairro, um pensamento ou um sentimento — lhe causa amargo desconforto. Nunca teve capacidade ou perícia para lidar com que não lhe fosse familiar. Sempre que experimentou algo de novo, foi com apreensão. Novidades, mesmo que aparentemente alvissareiras, lhe evocam um laivo de tormento, tormento ainda mais incômodo por ser inédito. Trouxe umas novidades aqui — o capineiro tímido diz cautelosamente em voz macia e ponderada. — Acho que vais gostar.
Será que ainda tem tempo de rememorar algo bom? Vê as três, quatro mulheres que conheceu em toda a vida caminhando à sua frente. Não consegue lhes enxergar os rostos, encobertos pelas cabeleiras abundantes. A primeira da fila tem algo na mão. Algo que brilha. Parece um... ...revólver. A segunda, idem, só que segura um... ...terço. a terceira, o que aparenta ser um jogo de costura. Só pode ser uma alegoria, Cândido diz a si mesmo, prontamente desinteressado. Detesta alegorias. Assim pensando, chega à esquina indicada pelo matuto e vira. A quarta... Arráááh! Não toque nesse nome! — Enraivecido, o outro cerra os punhos, retorce a bocarra, morde os lábios, ergue os olhos para o alto.
Está certo, está certo! procura mostrar um olhar conciliador. Outro sobressalto. Por esta não esperava... Peço-vos um pouco mais de paciência. Sabeis o estrago que Cristo causou a primeira vez. Não fosse ele, a humanidade teria acabado há dois mil anos.

7 - A derrota

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Às 6:30 da manhã ele estava certo.
— Olha, me chame do que quiser. Zé, João, Mané, Gregório. Aqui não damos grande importância à burocracia. Vocês que chegam a primeira vez são tão cheios de ideias fixas. Me chame simplesmente de porteiro. Ou batateiro, já que se amarra tanto no coió do van Gogh. Me chame do que quiser, seu fricoteiro duma figa! Passam por mais uma centena de portas. Vez por outra o cara-de-batata estaca, ergue a lamparina, estuda a porta, abre e torna a fechar, cada vez mais irritado.
Por três dias Cândido luta bravamente para não ficar chocado. Jamais pensou que chegaria a escutar alguém chamar seu divino, seu sublime mestre holandês de coió. Uma outra centelha de alerta lhe cruza o cérebro. Como cargas d'água o homem sabia de seu apreço pelo maior pintor de todos os tempos? A muito custo mantém os músculos do rosto inertes.
Não está vendo que é a porta errada? — o porteiro rosna, retomando a caminhada. Quando acorda, dá com o vulto à sua frente no corredor.
— Que tal Pedro? — arrisca. Que foi que houve? — Cândido sai atrás do outro. Bete está vestida de noiva, com véu e grinalda.
— Que seja. Entram. O lugar está na penumbra. De repente Pedrão dá meia volta e arranca apressado para o corredor.
— Pedro Porteiro? Não precisa bater? — Cândido espanta-se.
— Pode ser em minúscula mesmo, senhor. Cândido sai da letargia em que caiu na última meia hora e olha em volta. Nada de especial. Apenas uma porta, bege ou de outra cor qualquer indefinível, empenada, tinta descascando. O porteiro gira a maçaneta e abre.
Será que precisa pagar alguma coisa?
Cândido estreita os ombros, mantendo-os encolhidos por alguns segundos e abrindo as mãos com as palmas para baixo em sinal de submissão. É aqui.
Começa a matutar sobre a próxima pergunta a fazer. Repassa mentalmente as palavras com todo cuidado para não cometer outras gafes. Ao mesmo tempo estuda discretamente o porteiro, entre curioso e ansioso por identificar algo na expressão ou na roupa do sujeito enfezado que o ajude a determinar de quem se trata. Finalmente, depois do que para Cândido pareceu ter sido a Coluna Prestes multiplicada por cem, Pedrão comanda:
— Por aqui, sua besta!
Terminando a análise geral e passando aos detalhes, Cândido admira-se em ver que o rosto do sujeito está recoberto por uma grossa camada de maquiagem. Parece até uma máscara. Os olhos estão fortemente delineados por rímel e os pomos realçados por pó de rouge. Em alguns corredores mais curtos, o porteiro dobra uma esquina e desaparece da vista de Cândido, que aperta o passo, aflito.
Na ânsia de capturar tudo não captura nada. Por um instante a luz dentro fica rubra de tanto iluminar, no momento seguinte queima, exausta, o deixando cego. Cândido já começa a estudar os cabelos, quase convencido de que são peruca, quando o outro convida: Cândido olha o relógio. Parado. Deixou de funcionar no momento em entrou naquele... antro.
— Vamos entrando, homem! Pode não parecer, mas aqui tratamos o freguês com cortesia. — O anfitrião se põe de lado na soleira da porta para dar passagem ao visitante — se é que se pode chamá-lo assim. O cara-de-batata o conduz por corredores e mais corredores, saguões e mais saguões. Às vezes vocifera “Vamos! Mais depressa! Ele marcou às onze em ponto!”
Cândido tem um estranhamento. Sente-se conformado com a humilhação que o outro lhe impõe. Em outros tempos não levaria mais de uns segundos para se rebelar contra quem quer que tentasse comandá-lo; agora simplesmente abaixa a cabeça e segue os passos do homem; parece não se importar mais com fazer parte da correnteza.
Cândido tem um sobressalto ante a perspectiva de passar por aquela grande porta de duas folhas talhadas em madeira de lei. Está meio apreensivo — e ser chamado de freguês num consultório não melhora as coisas em nada. Olha para os lados sem saber direito o que fazer. Ainda não sabe que suplícios divinamente cruéis sua insolência lhe ensejará.
As mais formidáveis descobertas, as fazemos em nós mesmos. As mais perigosas que deixamos de fazer, também.
— Vai entrar ou vai ficar aí parado o dia inteiro!? — Num urro nada terapêutico o porteiro extravasa algumas gotículas do que parece um mar de impaciência. Quer conhecer pessoalmente o atrevido que ousa pedir-Lhe uma audiência.
O estranhamento produzido pelas convulsões dentro incomoda infinitamente mais que a apreensão das temíveis perspectivas fora. Como se tivesse levado um pontapé instintivo, Cândido salta à frente. Entra.
O porteiro bate violentamente a porta, passa a chave na fechadura, tranca os sete ferrolhos a cadeado e enfia o chaveiro num bolso das calças. Quer falar com você.
Em circunstâncias agônicas como esta em geral costuma buscar algum alívio apelando mnemonicamente aos raros momentos dourados da infância. Recurso que agora não lhe ocorre.
— Desculpe perguntar — diz candidamente Cândido, tentando não alimentar ainda mais a ira do porteiro. — Para que tantas trancas? Tem muito assalto por aqui?
— E...? — O outro faz, pondo-se em pé.
Não mais se enxerga uma ilha, uma ilha inacessível aos desconhecidos invasores dos diversos continentes.
— Pode-se dizer que sim. — O porteiro faz um sorrisinho enigmático. Cândido demora alguns segundos para dissipar da mente a cena do aeroporto com o carcereiro e a louca. Esfrega os olhos e vê.
O que é que você está vendo? pergunta alguém invisível em voz de gênero indefinível mas seguramente emitida por lábios pintados a batom carmim. A pergunta é acompanhada dum cacarejo frouxo que une escárnio e compreensão.
— E essas trancas são para impedir que entrem? — Cândido insiste, mesmo correndo o risco de receber outra resposta maleducada ante tão panglossiana indagação. Normalmente faria qualquer coisa para não dar vexame, preocupação que, entre aliviado e surpreso, percebe já não ter.
—   Falamos com o Homem — Pedrão diz sem abrir a boca, qual um boneco de ventríloco órfão de seu ventríloco. — O problema não são os que querem entrar... — ajunta com candura. Alguém o chacoalha pelo ombro. Ele acorda.

8 - O dom

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Nasceu com um dom — o dom de tolerar a dor.
— É esse cheiro de bezetacil no ar, doutor. Ei moço!
Não compreende a ira do Porteiro. Um vago pensamento de desistir lhe atravessa a consciência e vai sumindo além do horizonte qual gaivota negra.
— A que cheiro você se refere? Está no cinema. Para variar, filme americano. O protagonista é um homem que tem mais ou menos a sua altura. Coleciona discos do Roberto Carlos. Certo dia um incêndio destrói sua casa, reduzindo toda a coleção de discos a cinzas. Algo que chama sua atenção é que o homem mora em Cantão, China, onde trabalha como barqueiro no rio Sena. É claro que o Sena não fica em Cantão; no sonho fica. Depois do incêndio o homem, que tem sete filhos — Vanderlei, Vanderlea, Martinha, Lilian, Leno, Evinha e Eusébio —, muda-se com a família para uma choça alugada. O único bem salvaguardado das chamas fora o aparelho de tevê, que é ligada assim que a família se instala no novo lar. Está passando uma longa entrevista com um dos carcereiros da Masmorra Eterna, cuja estatura é mais ou menos igual à de Cândido. A entrevista é na casa do rapaz, que mostra sua coleção de vídeos e cedês ao jornalista. O carcereiro indica aleatoriamente uma fita da prateleira e a descreve orgulhosamente. Depois pega um cedê e repete o gesto. É seu xodó, diz, apontando a coleção. Então pega uma das fitas e introduz no vídeo, explicando que o fato gravado naquela fita ocorrera certo dia em que voltava de Belô, onde comprou uma filmadora último modelo. O avião já se prepara para a aterrissagem quando ele avista uma mulher parada no meio da pista, braços abertos, aparentemente uma louca que decidiu suicidar-se com pompa e aquela outra coisa. O piloto não pode evitar, pois uma manobra repentina a essa altura — nos dois sentidos — certamente resultaria num horrível desastre. A louca, que tem mais ou menos a altura de Cândido, está elegantemente vestida com um terno de tweed confortável e prático. À beira da pista há um sem-número de viaturas da polícia e algumas dezenas de homens fardados, todos portando fuzis apontados para a mulher. Provavelmente ainda não decidiram se é melhor abatê-la ou deixar que o avião a esmague contra a pista de concreto. Nesse ínterim, o carcereiro apanha a filmadora recém-comprada e registra toda a cena, sem perder um detalhe. Ao enquadrar a louca no visor da máquina, o carcereiro nota algo estranho nas feições dela e dá um zoom. Não é uma louca, e sim um louco. Um homem! Ou melhor, é o próprio Cândido. Sob o paletó ele traja uma camiseta com a inscrição “Testemunhas do fim!”. O carcereiro aumenta ainda mais o zoom e percebe que sob a camiseta há um volume que parece deformar o corpo do louco. Nesse momento, exclama excitado para o entrevistador, se dá conta de que é uma bomba. O homem está prestes a explodir e ele precisa avisar a polícia para que atirem nele antes de o avião atingi-lo.
Melhor, entende? Não convém.
— Esse. — Funga ostensivamente. — Não está sentindo? Cansado do azáfama, Cândido logo adormece. E, como não ocorre há longo tempo, sonha.
Assim não quero.
— Não. Cândido vira a cabeça para a fila, querendo ver quem é o quarto. Mas a fila não está mais lá. Quando se volta para o trio que se prontificou a interceder com o Maioral a seu favor, eles também já tinham ido. Sozinho e desanimado, Cândido senta-se na cadeira dura, tomba a cabeça à frente, apoiando o queixo no peito, e se põe a esperar.
Então Bete, de surpreendentes seios suculentos, estende a mão.
— Um cheiro constante. Não exageremos — João Sebastião resmunga, afastando-o com um braço e passando rispidamente a palma da mão no rosto. Com ar de nojo, examina a mão para ver se não está suja. — Vamos! — Acena para Wolfgang e depois para Ludovico. E dirigindo-se a Cândido: — Você espera aqui. E cuidado com o quarto da fila...
Cândido faz um esforço atroz para chorar.
— Só aqui ou outros lugares também? Obrigado! Muito obrigado!
Bete jura que jamais deixará seu amor acabar; que resistirá ao seu lado para ser infeliz e celebrará com ele cada momento de felicidade.
Pássaros que deviam estar ocultos sob o telhado do casarão de repente assomam nas calhas e começam a cantar.
— Todos os lugares. Não me larga. Desta vez Cândido não se contém. Agarra-se ao pescoço de João Sebastião e lasca-lhe um beijo na cara.
João Sebastião não mostra reação alguma, como se fosse natural. Como se fosse mulher! Sim, o Concerto de Brandenburgo tem índole feminina!
— Desde quando o senhor sente esse cheiro de bezetacil?
Vamos lá falar com o doutor Geraldo.
Não vá perdoando assim sem mais nem menos quem lhe fez mal.
— Desde sempre. João Sebastião, dando um tapinha amigável nas costas do amigo, põe-se na direção de Cândido e, para alívio deste, diz:
— A misericórdia também corrompe.
Pra começo de conversa, nasceu tardio. Como se não quisesse nascer. Como se relutasse em vir à luz. Às vezes parece lembrar-se de que aguardou até o último segundo. Mesmo no útero parecia ter ciência do Tempo e das funestas implicações da imperícia no trato com o Tempo. O Tempo Maiúsculo. Para ele, esperar até a última fração de segundo foi particularmente significativo. Determinante mesmo. Quando João Sebastião termina sua exposição, o surdo genial lança um olhar inquiridor e ao mesmo desinteressado a Cândido, que pensa: “Ih, tô lascado! Ele não aceitou”.
As pessoas parecem pensar que ser adulto é uma constante.
Talvez seja o que o tenha levado àquela mania estranha. De gostar de ficar prestes. Ludovico não expressa reação alguma — apenas fita o outro ora com impaciência, ora com enfado. O homem do violino elétrico deve ser o herdeiro. Cândido é um sujeito que curte estar prestes. Ainda cedo na vida percebeu que não seria difícil passar dessa dimensão temporal à física. De ser sempre prestes se converteu em ser sempre à beira. Logo viu que poderia ser um homem prestes à beira. Mais apreensivo que nunca atenta a cada um dos movimentos labiais de João Sebastião.
Depois de apertar a campainha, escutar a derradeira contração cardíaca, vai finalmente entrando em terra desconhecida. Não necessariamente dos outros. Meu camarada, escute uma coisa: esta papo já tá me enchendo os pacotes. Estou à beira. Do que quer que seja. Prestes. Ao que quer que seja.
— Você esqueceu de novo que ele é surdo feito uma porta! — João Sebastião afasta-se zangado rumo a Ludovico. Aproximando-se do bonniano, começa a fazer mímica e a berrar para se fazer ouvir, explicando a situação.

9 - O ingresso

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Mamãe-estátua gostava de fazer escândalo. Toma vergonha nessa cara, banana duma figa! Banana duma figa era seu insulto favorito. Curtia também amaldiçoar seu futuro e sua prole: você um dia vai ser pai!
Cândido tinha mania de encostar o pé na borda dum ladrilho na cozinha. Parava, matutando se devia passar para o próximo ladrilho. Cismava um tempão. Naquela época não tinha muito que fazer do seu Tempo. Como a maioria dos outros homens, confundia a infinitude do Tempo com a própria infinitude. O Tempo passava. Mas só passava para os outros. Em sua cabeça podia dominar o Tempo discricionariamente. O marrudinho de Bonn, cenho fechado e compenetrado de quem está engendrando os acordes iniciais da décima sinfonia, não dá pelota.
Quando mamãe-estátua desandava a vociferar, tinha gana de botar a casa abaixo. Incendiar tudo, mama-estátua e papi-estátua inclusos. Maiorzinho, começou a parar à beira da calçada em frente sua casa num bairro operário de Belô. Operário, cinzento, sujo, nublado e triste.
— O Ludovico tem de topar. E você fala! — Ele finca o dedo indicador no peito de João Sebastião. — Dando meia volta, chama o terceiro homem da fila. — Ludovico! Ludovico!
Assombrou-se quando viu uma mulher pelada a primeira vez, as tetinhas incipientes, a rala relva pubiana, o brilho de paixão, ânsia e medo nos olhos dela. Subia na mesa da cozinha e encostava a ponta dos dois pés no finzinho do tampo. Olhava pro chão e ficava lá imóvel, fascinado. Mami-estátua olhava se perguntando, por que será que esse menino fica tão fascinado com essa brincadeira boba? Wolfie, encorajado por João Sebastião, que brande afirmativamente a cabeça, finalmente aquiesce.
Passou os quatro dedos no meio das pernas dela, os pelos se ergueram, Cândido se surpreendeu com o efeito e própria capacidade de provocá-lo. Começou a chover, sentiu as orelhas eriçadas pelos pingos palpitando sobre o telhado do quarto sem forro. Um dia a família viajou para o Rio. Belô era uma cidade feia e sem praia. Viajaram para o Rio uma vírgula. Na verdade ainda hoje não sabe que praia era aquela. O pai alugou uma cabine, em cujo interior não se viu mais à vontade do que em todos os outros lugares em que o incômodo do beirismo jamais lhe dava trégua. A cabine ficava encalacrada no meio duma fileira imensa de outras, a se perder de vista dos dois lados, cada qual com uma portinhola verde-garrafa, umas abertas, outras semiabertas, umas fechadas, outras trancadas, umas ocupadas, outras vazias. Bundas de homenzões e mulheronas desfilavam à altura de sua cabeça, tirando finas de seu nariz, gigantes barrigudos, bundudos, tetudos, queixudos, um vozerio incessante e surdamente desesperador, a fileira de cabines às vezes ziguezagueando à sua volta, o ronco sacolejante da jardineira em que tinham descido a serra, ouvidos tampados, tudo acontecendo meio longe e abafado como sempre. Pelas mais sagradas notas que já encantaram os ouvidos dos homens.
De repente a menina se arremessou em seus braços, cochichando com estridência “Te amo! Te amo! Vou ser sua até o fim da vida...” Cândido a afastou abruptamente, assustado com tão intenso ardor. Mas ainda tinha forças para lutar por um resquício de prazer, uma vitoriazinha que fosse. Testemunhando a conversa entre os dois deuses da música, decidindo que aquela é sua chance, típica situação “ou vai ou racha!”.
Tentava fazer a penetração mas seu pinto dobrava, causando forte dor. Será que ela estava apertando a bucetinha? Aprumou um indicador e o meteu com toda a força que tinha entre os gordos lábios à sua frente. A menina soltou um gemido agudo querendo cerrar as pernas, mas agora era tarde.
— Pai, quando é que vamos ver o mar? Que você queria? Nem tive tempo de concluir a partitura. Ele me deu uma passagem precoce pr'este Cu de Mundo!
De repente, acabou. Sentiu o pinto mole e solto no ar. Mais! Mais! ela pedia, impaciente. Papi-estátua engolia sôfrego um copo de cerveja no boteco bordejando o pavilhão das cabines, a mãe assistindo de longe, também esperando. Pudera! Você foi dizer que o mundo estava cheio de barbeiragens, que estava tudo errado, que no lugar d'Ele você faria tudo de novo e melhor, que Ele era indigno do seu Requiem...
Começou a pensar em sua coleção de selos enquanto tentava nova penetração. Ouviu a chuva cessar de bater no telhado. A menina apalpou a vagina com expressão de inspecionar os danos resultantes da operação. Depois duma eternidade ele é agarrado pela mão e rebocado aos trancos, rumo ignorado, trombando cego em barrigonas e bundões fofos, moles, estremecentes, pífios, de repente sente os pés molhados e luta contra o torpor. A beira do mar. Síncope instantânea.
— Não sei não — Wolfie alisa o queixo, pensativo. — Da última vez que aprontei Ele me arrancou o arco da mão e arrebentou na cabeça duma das cantoras do coro, vociferando “Dies Irae” naquele vozeirão de meter medo. E ainda me condenou a este Stradivarius de Woodstock.